10 de maio de 2017

Eu sei, mas não devia


Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.
A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos 
e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.

E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E porque não abre as cortinas logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E a medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E aceitando os números aceita não acreditar nas negociações de paz,
aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.
A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
A lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.

E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas que se cobra.
A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.
A gente se acostuma à poluição.

As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
A luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
A contaminação da água do mar.
A lenta morte dos rios.

Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães,
a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.
A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.

Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.

Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se
da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

(Marina Colsasanti)



(Achei muito verdadeiro e gostei, amei e postei!) ❤

1 de maio de 2017

Para hoje...


Para hoje...
Um bocadinho de ternura e paz
com cheirinho e colorido de flor
para alegrar o dia.

(Adriana Silva)


14 de abril de 2017

Aquela criança que habita dentro de nós.


Hoje deitei-me com o meu lado criança... Lado esse que não despertava há muito tempo devido a seriedade dos meus dias, correria dos meus compromissos e afazeres. Larguei o franzido da testa e dei lugar as melodias infantis e ninei meus sonhos momentâneos e nutri os ouvidos da minha filha. Eu sei que a gente cresce, mas nos esquecemos de brincar, e que não importa quantos anos tivermos sempre seremos aquela criança que habita dentro de nós. 

(Adriana Silva)


27 de março de 2017

Outono


Outono...
Folhas caídas,
céu muda de cor.
É a despedida do calor.

(Adriana Silva)

15 de março de 2017

Nunca deixarei...


E quando em minha mente tiver a lembrança da criança que vou continuar sendo, mesmo que cronologicamente tudo me desminta não vai impedir em mim  que sinta a velha criança pousar. Poderei ter quantos anos quiser, e gostar dos meus balões preferidos, coloridos e queridos com magia da cor do céu, do amor, do sol, e do entardecer. Meus olhos brilharão da mesma forma como algo lindo. Eu envelhecerei, mas de ser criança, em pequenas coisas nunca de ser deixarei.

(Sonhos de Jaqueline)

2 de março de 2017

O barato da vida


O melhor da vida é molhar-se. De banho inesperado, divertido e contemplado. 
Ao escrever isso narro a minha filha. Esse mundo encantado é com ela que sonho. Escrevo sobre ela e para ela e como se a voz dela me ditasse o que escrever. Vejo nela uma garra de viver tão grande, onde vê a graciosidade de tudo como um milagre. Quando a chuva cai ela saboreia, e tudo é uma grande piada. O barato da vida para ela é rir dos tombos, é rir das pessoas, é achar tudo engraçado. Até os momentos difíceis são narrados com gargalhadas por ela. Aí eu percebo o quanto eu tenho com ela a aprender.

(Adriana Silva)

3 de fevereiro de 2017

E não basta transbordar. Tem que espalhar!


Que o seu mundo seja recheado de amor mesmo que ele cruze com a palavra dor. Que o seu mundo seja cheio de coisas positivas mesmo que as interrogativas teimem em atravessar seu caminho. Que nessa ciranda de cor o amor não se perca e sim se multiplique. E não basta transbordar, tem que espalhar!

(Adriana Silva)